24/10/2016 - 11:14
Quando o olho indica um perigo?

                Por alguma razão sem explicação estamos acostumados a pensar em um problema ocular como sendo algo que não causaria um perigo eminente para a saúde geral do corpo. De fato, na teoria, uma doença isolada no olho não poderia se alastrar para o resto do corpo. “Ninguém morre por causa do olho” estamos acostumados a ouvir. Mas os ditos populares que vão de encontro a este pensamento não são verdadeiros, isso vale para humanos e também para os animais. Há um provérbio que diz: “os olhos são o espelho da alma”. Podemos adaptar esta frase afirmando que os olhos são o espelho da alma e uma janela para corpo. Isto porque algumas doenças sistêmicas, ou seja, no corpo todo, podem manifestar sinais nos olhos. Não esqueçamos que o contrário também pode ser verdadeiro, isso quer dizer que sim, um problema nos olhos pode sim levar o paciente de estimação a óbito.

                Existe um grupo gigantesco de doenças infecciosas que podem manifestar sinais oculares sob a forma de uma doença chamada uveíte. A uveíte é a inflamação da camada vascular do olho, nesta está incluída a íris, que é a parte colorida. Podemos citar alguns exemplos de doenças infecciosas que poderiam levar a essa inflamação sendo as mais comuns: erliquiose e babesiose (doenças do carrapato), sepse (infecção bacteriana generalizada) vinda do útero com piometra ou doenças periodontais graves, hepatite canina e cinomose nos caso de cães; e os vírus da imunodeficiência, leucemia, peritonite ou herpes bem como um grupo amplo de bactérias nos casos de felinos. Catarata, traumas, doenças metabólicas e autoimunes em ambas as espécies também constituem possíveis causas de uveíte. Aliás, a catarata pode também ser consequência de tal doença. Sinais oculares de uveíte podem ser sutis e difíceis para um leigo identificar, mas muitas vezes suas alterações são evidentes e se caracterizam por: vermelhidão ao redor dos olhos, lacrimejamento em excesso, olho opaco assumindo coloração azul a branca no centro, alterações de cor na íris (parte colorida do olho), pupilas (parte preta do olho) de tamanhos diferentes, sangramento dentro dos olhos e em alguns casos cegueira.

                                                                          Figura 1. Gato portador de uveíte apresentando alteração
                                                                          na coloração dos olhos.

                Tumores também podem ser citados como uma causa sistêmica que pode afetar os olhos, sendo o inverso também verdadeiro. Sim, um tumor pode iniciar-se nos olhos e se espalhar pelo corpo, no que chamamos de metástase. O surgimento e crescimento dos tumores podem ocorrer tanto dentro dos olhos quanto fora, nos tecidos e órgãos que constituem o que chamados de anexos oculares, é o caso das pálpebras, conjuntiva, etc. Quando crescem na parte de fora dos olhos, por vezes o responsável pelo animal rapidamente os identificam, mas o crescimento intra-ocular desses tumores torna essa tarefa muitas vezes difícil. Os sinais de tumores intra-oculares são praticamente os mesmos da uveíte, mas atenção especial deve ser dada à coloração da íris quando esta possui cores claras e que passam a ser acompanhadas de manchas escuras, com ou sem abaulamento, e também a crescimentos de coloração escura ou avermelhada na região branca dos olhos.

                                             Figura 2. Dois animais diferentes apresentando tumor palpebral (esq.) e melanoma intra-ocular (dir.).

                Animais com cegueira súbita ou repentina também podem apresentar doenças sistêmicas infecciosas ou não infecciosas que ponham em risco sua vida. Aumentos da pressão arterial, por exemplo, podem causar descolamentos de retina acompanhados de sangramentos intensos. Esse aumento de pressão arterial pode estar associado com doenças renais e/ou cardíacas crônicas, doenças endócrinas (diabetes e hiperadrenocorticismo) em cães bem como doenças renais e/ou cardíacas crônicas e hipertireoidismo em gatos.

                Em todos os casos citados a avaliação do veterinário oftalmologista deve ser criteriosamente associada à avaliação de um veterinário clínico geral ou especialista na área suspeita afetada. As afecções aqui relacionadas são as mais comuns, mas não as únicas. As manifestações oculares de doenças sistêmicas são amplas e suas causas tanto quanto. Detalhá-las está além do escopo desse texto informativo e pode confundir as informações para os responsáveis pelos animais.

                Se seu animal é portador de qualquer doença crônica é importantíssimo que passe por uma avaliação com um veterinário oftalmologista. Caso fique em dúvida sobre se a doença de seu animal pode ser considerada crônica e de risco, consulte seu clínico geral.

 

 

Msc. Thiago A. C. Ferreira
Veterinário Oftalmologista
CRMV/SC 4257

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